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Saúde e Comportamento com Diego Vieira

10/12/2018 às 18:04

Casos Clínicos: Depressão

 
Humor deprimido na maior parte do dia quase todos os dias, acentuada diminuição do interesse em realizar atividades, perda ou aumento de peso sem estar fazendo dieta, bem como falta de apetite ou excesso de apetite, insônia quase todos os dias, agitação ou retardo psicomotor, fadiga ou perda de energia quase todos os dias, sentimento de inutilidade, capacidade de concentração e/ou pensamento reduzida, pensamento recorrente de morte. Enumere quantos desses comportamentos você vem apresentando nas últimas duas semanas no mínimo. Quanto deu? Se menos de cinco, ótimo. Se mais de cinco, conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V), você apresenta um quadro de transtorno depressivo maior, mais conhecido como depressão popularmente. Mas isso significa que você tem o transtorno? Um questionamento pertinente que há muito tempo venho sendo interrogado, principalmente por pessoas que desconhecendo esses “sintomas” acham que tristeza recorrente significa que o sujeito está ou é depressivo.

Primeiro é preciso entender que tristeza não é sinônimo de depressão. Inclusive pode haver casos em que a pessoa se enquadra nos critérios diagnósticos de depressão mas não necessariamente é uma pessoa que sente uma constante tristeza. Podemos ficar tristes, por brigar com o namorado, ou ate mesmo por não conseguirmos a nota desejada naquela prova que tanto estudamos. Podemos passar dias triste por ter perdido o emprego ou até mesmo por sentir falta de um ente querido que faleceu. Podemos ficar extremamente triste caso nossa casa tenha sido destruída num desastre natural, e esse sentimento pode durar meses. Estes eventos, embora sejam causa de um sentimento de tristeza, podem sim ocasionar um estado depressivo na pessoa que por eles passaram. Mas quero aqui chamar atenção para o fato de que embora existam critérios e manuais diagnósticos para classificar os transtornos mentais, o que define o mesmo são as relações que o sujeito estabelece com seu ambiente. Veja que nos exemplos citados acima, todos estão relacionados a algo que aconteceu no ambiente, então, assim, já é válido considerar que ninguém entra num quadro depressivo apenas por condições genéticas, da mesma forma ninguém se mantém neste estado apenas por estas condições. O DSM-V, afirma ainda que estes “sintomas” devem estar presentes na vida do sujeito por no mínimo duas semanas para ser diagnosticado o transtorno, aparecendo na maior parte do dia, durante todos os dias, com significativa perda da vontade de realizar atividades. Você deve estar se perguntando o porquê que utilizo aspas na palavra sintomas; vou lhe explicar. Aquilo que neste manual é classificado como sintoma, são na verdade comportamentos e, como seres humanos produto de nossa ação no ambiente, nossos comportamentos, inclusive os classificados como depressivos, devem ser analisados conforma a interação do sujeito com seu ambiente e é nesta interação que o psicólogo analítico-comportamental está interessado.

Uma pessoa que emite comportamentos que fazem parte de um padrão depressivo, o qual chamamos de “desamparo aprendido”, é uma pessoa que vive sob contingências aversivas em seu ambiente, ou seja, o mesmo tem baixo repertório comportamental para lidar com eventos desagradáveis, e é neste repertório que nós psicólogos iremos atuar na clínica psicológica. A classificação por si só não nos dá base para intervenção num caso de depressão, mas sim a função do comportamento do sujeito, a isso damos o nome de tríplice contingência. Um evento aversivo como a morte de um ente querido funciona como estímulo que causa o comportamento de choro, por exemplo, que consequentemente é reforçado negativamente por afago e carinho das pessoas a sua volta. O processo é mais complexo mais no básico funciona mais ou menos dessa forma. O que causa o comportamento do sujeito é tão importante quanto quais as consequencias que ele tem com este comportamento.

Em termos neurológicos, pessoas que emitem um padrão de comportamento característico da depressão, sofrem de baixa produtividade de serotonina, por isso que os medicamentos antidepressivos atuais (inibidor seletivo de recaptação de serotonina – fluoxetina, sertralina, citaprolam, paroxetina) agem na ação destes neurotransmissores, que são substâncias produzidas pelos hormônios responsáveis por nossos comportamentos. Em outras palavras, uma pessoa com depressão possivelmente apresentará um baixo nível de serotonina encontrado no sangue e também apresentará os sintomas clássicos estabelecidos pelo DSM, mas um diagnóstico preciso não pode se limitar a isso, principalmente porque as “causas” da condição de saúde de uma pessoa são diferentes das “causas” de uma outra pessoa com o mesmo diagnóstico. (DIAS, 2014). Em um livro publicado recentemente, Chopra e Tanzi, afirmam que recentes estudos indicam que novas células nervosas no hipocampo são capazes de inidir as emoções negativas despertadas na amígdala (reguladoras de lembranças emotivas e reação ao medo). Atividades capazes de aliviar o estresse, como praticar exercícios físicos ou aprender coisas novas, provocam os surgimento de novas células nervosas que, consequentemente, promovem neuroplasticidade –novas sinapses e novos circuitos neurais . a neuroplasticidade pode regular o humor e prevenir a depressão. Portanto, o nascimento de novas células nervosas no hipocampo adulto ajuda a superar desequilíbrios neuroquímicos que provocam distúrbios de humor como a depressão. Parece que a solução do problema está na neurogênese não é? Ou seja no nascimento de novas células nervosas. Estes mesmos autores afirmam que alguns estudos demonstraram que antidepressivos como o prozac podem funcionar pelo menos parcialmente para aumentar o aparecimento de novas células nervosas no hipocampo. Então se o prozac tem esse poder, parece ser inofensivo fazermos uso de algumas pílulas para benefício próprio; mas o problema está exatamente no uso da droga. A seguir listarei os motivos pelos quais o uso de antidepressivos como este são uma armadilha para quem dele faz uso:
1 – Usando drogas o sujeito não adquire habilidades de comportamento para lidar com situações aversivas como as que vivenciou.

2 – A resolução de problemas não é um comportamento que pode ser adquirido com uso de substância.

3 – A mesma atividade que a droga pode exercer no nosso cérebro, nós podemos tê-la emitindo comportamentos assertivos, ensinando ao próprio cérebro a formar novos circuitos neurais de forma natural.

4 – As drogas não curam a depressão. Elas apenas atuam amenizando seus “sintomas”, à medida em que o sujeito deixa de tomar, os comportamentos depressivos voltam a ocorrer.

5 – Com o tempo nosso cérebro exigirá doses cada vez mais elevadas da substância para ter o mesmo efeito (chegando ao ponto de não mais ter efeito no organismo).

6 – O uso de drogas vicia o cérebro a precisar da droga toda vez que precisar emitir determinado comportamento, como a indução ao sono, por exemplo.

7 – Todas as drogas têm efeitos colaterais e estes muitas vezes são irreversíveis ao organismo.

Dessa forma, o uso de técnicas comportamentais eficazes tem proporcionado significativas evoluções em quadros de depressão nos consultórios nos últimos tempos, sendo reconhecidas como excelentes neste tipo de tratamento. O trabalho estará sempre voltado para as relações do sujeito com seu ambiente e nas suas habilidades de comportamento para lidar com as situações que vivencia, pois uma relação significativa com o ambiente pode permitir um maior acesso a reforçadores positivos e consequentemente a liberação de serotonina no organismo. (DIAS, 2014),ou seja, os mesmos efeitos que a droga poderia proporcioar, o nosso cérebro tem naturalmente a capacidade de desenvolver estas estruturas. Alguns casos, é claro, exigirá um trabalho em conjunto de psicólogo e psiquiatra, tendo em vista a necessidade do organismo a fim de que aos poucos o paciente interaja com o tratamento psicológico. Nossa cultura está viciada em ver nas pílulas uma solução milagrosa, mas na verdade encontrar um caminho para sair da depressão é uma atitude curativa, enquanto as drogas não o são. Busque um psicólogo para avaliação e tratamento do seu problema, em busca de soluções efetivas e comprovadas científicamente.

Diego Marcos Vieira da Silva

Psicólogo comportamental (CRP15/4764), formado pela Universidade Federal de Alagoas, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instuições de saúde mental.
Referências:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. 992p.
BANACO, Roberto Alves. Técnicas cognitivo-comportamentais e análise funcional. Laboratório de psicologia experimental Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Disponível em: < http://necpar.com.br/uploads/material/286tcc_e_analise_funcional.pdf>. Acesso em 28 de outubro de 2016.

BRITTO, A.G.S. Psicopatologia e análise do comportamento: algumas reflexões. Boletim Contexto ABPMC | Dezembro de 2012 | n. 37. (pgs. 55-69).

CHOPRA, Deepak. TANZI, Rudolph E. Supercérebro: como expandir o poder transformador de sua mente. Tradução de Bianca Albert, Eliana Rocha, Rosane Albert. – São Paulo: Alaúde Editorial, 2013.

DIAS, Débora. Depressão: algumas considerações sobre o diagnóstico, 2014. Disponivel em: <http://www.comportese.com/2014/06/depressao-algumas-consideracoes-sobre-o-diagnostico>.
 

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