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Saúde e Comportamento com Diego Vieira

04/06/2018 às 06:11

Como lidar com a perda

 
Após ser informado sobre sua condição terminal, B. F. Skinner disse em entrevista para National Public Radio em 1990:

[...] E quando me contaram que eu tinha isso [leucemia] e iria morrer em poucos meses, eu não tive nenhum tipo de emoção. Nem um pouco de pânico, medo ou ansiedade. Nada. A única coisa que me emocionou, de verdade, meus olhos se encheram de água quando pensei isso, é que eu teria que contar a minha esposa e filhas sobre isso. Sabe, quando você morre você machuca as pessoas, se elas te amam. E você não pode evitar. Você tem que fazer isso. E isso me incomodava. [tradução nossa]. (Ridanos Protectors, 2014 apud Nascimento et al, 2015)

Nesse breve comentário, o fundador do Behaviorismo Radical exemplifica uma das experiências mais marcantes que o ser humano pode vivenciar: o luto. Condição inerente ao ser humano, este comportamento pode ser entendido como punição negativa, a qual o comportamento diminui quando algo é retirado do ambiente da pessoa. Lidar com a perda de algo importante não é tarefa fácil, principalmente para pessoas que dependiam do objeto perdido para prover seu ambiente. No entanto apesar de estarmos sujeitos a perdas constantemente, muitas vezes preferimos acreditar que ela se efetivará num tempo distante, tendo em vista a relação prazerosa que se estabeleceu entre a pessoa e objeto perdido.

Para analisarmos o luto, precisamos antes entendê-lo como um estado emocional que se caracteriza pela depressão do sistema nervoso central, permitindo à pessoa enlutada diminuição dos comportamentos normalmente emitidos no ambiente. Para exemplificar melhor, imaginemos que João seja bastante apegado ao seu cãozinho e há quatro anos fazem caminhadas juntos pelas ruas da cidade todos os dias pela manhã, até que um dia o cãozinho morre. É natural que o comportamento de passear pelas ruas da cidade todos os dias seja diminuído e além disso, João passe a maior parte do tempo em casa, pensando e olhando as fotos do cachorro. Dessa forma, podemos considerar o luto como um conjunto de comportamentos que interagem com o ambiente, denotando a ele uma análise precisa de previsão e controle. Eventos antecedentes pode-se considerar o vínculo e a perda, as reações do luto como o próprio comportamento e a “recuperação” como consequência.
Em psicoterapia analítico-comportamental, trabalhamos com a “audiência não-punitiva” que significa um acolhimento da pessoa enlutada, compreendendo que cada processo de luto é único e será influenciado por fatores distintos, como quem era a pessoa que morreu; a natureza do vínculo com a pessoa morreu, antecedentes históricos; variáveis de personalidade; variáveis sociais e estressores concorrentes, como prejuízos secundários, mudanças sobrepostas e crises subjacentes à perda. Muitas vezes aquele que busca terapia está desmotivado para continuar vivendo sem a pessoa perdida, pois não vê outra forma de existência. Com isso, agem pouco em seu ambiente, passando a maior parte do tempo isolado do convívio social e deixam de fazer atividades rotineiras como de costume, a isso damos o nome de “contingência aversiva” e envolve estímulos que diminuem a atividade do organismo.

Segundo Worden (2013), supõe-se que há influências biológicas para que a separação influencie respostas instintivas de reparação. Quando se trata de humanos, fatores culturais também moldam a maneira como cada um reage à perda, mas a tentativa de reencontro com o falecido é uma frequente em praticamente todas as civilizações, como, por exemplo, por meio de rituais religiosos ou apego a pertences do falecido. Quando falamos de fatores culturais estamos falando de “sociogênese” e creditamos a ela boa parte das causas de nosso comportamento, inclusive dos sentimentos, então a forma como reagiremos a perda deve considerar uma análise do ambiente ao qual estamos inseridos, dando maior ênfase a todos os aspectos que podem influenciar na forma como o comportamento de enlutar será emitido.

Diferenciando a perda do luto, a variável mais importante é a vinculação. Em 31 de outubro de 2002, o assassinato do casal de classe média alta Manfred e Marísia von Richthofen, na Zona sul de São Paulo, chocou o país ao ser descoberto que a filha do casal, Suzane, foi a responsável pelo assassinato. Embora disseram à polícia que mataram o casal porque tinham proibido o namoso de Suzane com Daniel, a polícia afirma que a causa tem relação com a herança que deixariam para a fiha. Este caso real denota um aspecto importante para a análise do luto, pois envolve uma gama de variáveis para ser analisada, mas em particular quero frisar que a “perda” dos pais representava um alto valor de benefícios para Suzane, considerando a herança que receberia. Por isso nem toda perda significa luto. A perda significará luto quando se tem uma relação de apego emocional com o objeto perdido, semelhante a mães que perdem seus filhos, casais que se separam, amigos que se despedem antes de uma viagem sem volta, pessoas ligadas por laços afetivos. A esse comportamento natural, damos o nome de vinculação. Evoluímos com o “comportamento de vínculo”, pois foi necessário para nossa sobrevivência, principalmente onde relacionar-se com as pessoas tinha um valor de segurança em grupo. No entanto, como ilustrado no caso acima, a perda, embora planejada pela filha, tinha um alto valor de reforço para a mesma, o que também não significa dizer que ela não sofreu com isso ao se ver agora responsável por seus próprios atos. O comportamento humano é multideterminado, por isso não podemos avaliar o luto apenas pela forma como as pessoas estão emitindo. As reações à perda tendem a ser excessivas nos casos em que parte considerável dos reforçadores positivos da vida do enlutado dependiam do falecido para serem produzidos (Torres, 2010).

Podemos ser capazes de vivenciar o luto com menos impacto, se antes nos preocuparmos em prover um ambiente onde os benefícios alcançados por meio de alguém, sejam alcançados por nós próprios, a isso damos o nome de “habilidades”. Uma pessoa de 20 anos, que nunca trabalhou, que sempre alcançou o que queria pelo esforço de alguém e mantinha-se numa bolha isolada do convívio social, com certeza sentirá o luto de uma forma muito mais severa do que uma outra pessoa de mesma idade que está trabalhando, ativa, na faculdade e alcançando seus objetivos por meio de seus próprios esforços. Entretanto, isso não impede a pessoa de treinar suas habilidades para superar da melhor forma a perda de alguém importante, aumentando seu repertório comportamental. Assumir responsabilidades funciona como uma importante ferramenta para ampliar nosso repertório, somando a isso ser provedor de seu próprio ambiente.

Para superar o luto, faz-se necessário antes vivenciá-lo. Objetos pessoais, ambientes que frequentavam, fotos registradas e pessoas queridas, podem ser estímulos aversivos para a pessoa enlutada que de início pode optar por evitá-los. No entanto, a depender da recuperação, estar em contato com estes estímulos pode ser uma maneira encontrada para se despedir de forma saudável da pessoa perdida. Lembrar de maneira positiva da pessoa, considerando a contribuição dela para sua vida, pode também funcionar como formas benéficas para se vivenciar o luto. Nossa cultura também se utiliza de estímulos religiosos para interpretar nossas ações no mundo, para algumas pessoas, entrar num grupo religioso possibilita aceitação, vinculação, acolhimento nesse momento de dor, porém a psicoterapia se faz como uma ferramenta crucial nesse processo natural, pois utiliza-se de ferramentas específicas para a recuperação da pessoa enlutada.

Assim, levando em consideração que nosso comportamento é produzido na interação com nosso ambiente, o luto também deve ser analisado conforme cada caso, pois cada processo de luto será influenciado por fatores distintos e merecem uma análise funcional do comportamento em questão. Seja ativo! Movimente-se! Alcance seus objetivos mediante seus próprios esforços, ampliando suas habilidades de sobreviver num ambiente aversivo.

Diego Marcos Vieira da Silva / @psicodiegovieira
Psicólogo Clínico Comportamental CRP 15/4764


REFERÊNCIAS:

NASCIMENTO, D.C. NASSER, G.M. AMORIM, C.A.A. PORTO, T.H. Luto: uma perspectiva da terapia analítico-comportamental. Psico/Argum. 2015. Out./dez. 33 (83), 446-458.

SKINNER, B. F. (1980). Contingências do reforço: Uma análise teórica. Tradução organizada por R. Moreno. Em Pavlov/Skinner (pp. 171-380), . São Paulo: Abril Cultural. (Trabalho original publicado em 1969)

TORRES, N (2010). Luto: a dor que se perde com o tempo (...ou não se perde?). In M. R. Garcia, P.R. Abreu, E.N. Cillo, P.B. Faleiros, & P.Piazzon, Sobre comportamento e cogniçao: Terapia Comportamental Cognitiva (Vol. 27, pp. 385-393). Santo Andre, SP: ESETec Editores Associados.
 

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7 comentários

  • Enviado em 05/06/2018

    Por Laís Costa

    Que texto fantástico! Só quem já perdeu alguém bem próximo sabe o quão verdadeiras são essas palavras!! Muito interessante entender funcionalmente todo esse processo.

  • Enviado em 04/06/2018

    Por Rosicleide de Souza Santos

    Um tema que não cessa sua necessidade de discussão. Gosto muito da maneira como você aproxima nós leitores de temas por vezes até complexos. Parabéns!

  • Enviado em 04/06/2018

    Por Shirllyane

    Discussão muito importante! Gosto muito dos textos de Diego Vieira! Parabéns!

  • Enviado em 04/06/2018

    Por Elton Silva de Lima

    Texto belo e necessário! Lidar com a perda não é tarefa fácil, mas possível. Nem sempre conseguimos sozinhos, por isso a ajuda profissional de um psicólogo analista do comportamento é tão importante.

  • Enviado em 04/06/2018

    Por Allyne Albuquerque

    Parabéns pelo excelente artigo. Muito importante percebermos como agimos e o por quê dos nossos comportamentos. Tenho certeza que uma leitura proveitosa desse texto beneficiará muitas pessoas.

  • Enviado em 04/06/2018

    Por Cleia Souza

    Parabéns, Diego! Fantástico o seu texto e muito esclarecedor. Já estou na espera no próximo

  • Enviado em 04/06/2018

    Por Behavior

    O psicológo Diego Vieira tem abordado temas bastante relevantes na sociedade. Parabéns pela didática usada e ao jornal pelo espaço cedido.