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Saúde e Comportamento com Diego Vieira

24/08/2018 às 06:24

PAIS QUE BRINCAM COM OS FILHOS, FORTALECEM CIRCUITOS NEURAIS E GARANTEM O DESENVOLVIMENTO

 
Estudos em neurociência realizado nas últimas décadas tem comprovado que o desenvolvimento de nosso cérebro se dá na interação com o meio em que o sujeito está inserido. Os comportamentos emitidos pelas crianças são produto dessa interação com o ambiente, sejam eles comportamentos adequados ou não. Dessa maneira, tendo em vista que o desenvolvimento humano pode ser entendido como um alicerce sobre o plano de interações, é correto entende-lo como uma totalidade, que é um processo onde aspectos genéticos, físicos, culturais e sociais estão intimamente relacionados, produzindo indivíduos e subjetividades, que constroem modos de ser, pensar e agir no mundo único e singular, considerando ainda a história de vida individual de cada um, como mecanismos de garantia de seu desenvolvimento, pois “O desenvolvimento da criança deve ser compreendido de forma holística e a compreensão das diferenças individuais no desenvolvimento saudável e patológico implica a consideração das transações que ocorrem ao longo do tempo entre indivíduo e contextos sociais e ecológicos” (PEREIRA, 2008. p.27). Quando, com isso, falamos de desenvolvimento é importante compreender que ele se faz durante toda a existência do indivíduo, não havendo um período em que o sujeito deixa de desenvolver-se. Enquanto há vida, há desenvolvimento, pois todo desenvolvimento requer aprendizagens. Um grande teórico que entende o comportamento humano conforme a interação do sujeito com seu ambiente foi B.F.Skinner, o qual no século XX uma nova teoria psicológica a qual ele chamou de behaviorismo radial. Segundo ele “[...] quando dizemos que o comportamento é função do ambiente, o termo ‘ambiente’, presumivelmente significa qualquer evento no universo capaz de afetar o organismo” (SKINNER, 2003, p. 281). Assim, nega qualquer interpretação de que o comportamento tem causas internas/mentalistas, explicações desse tipo são circulares, pois buscam encontrar as causas no interior do sujeito, ignorando as variáveis pelas quais a resposta é função. Segundo ele “quando aquilo que uma pessoa faz é atribuído a algo que lhe ocorre no íntimo, cessa a investigação. Por que explicar a explicação? Dessa forma, a proposta behaviorista busca uma análise mais precisa do papel do meio, considerando que o comportamento do sujeito é resultado de sua interação com o ambiente que produziu tal comportamento.

Quando falamos de desenvolvimento e fortalecimento de circuito neuronal, falamos do quanto nosso cérebro evoluiu em milhões de anos, semelhante a uma casa, ele aumentou suas repartições e novas áreas se formaram para garantir uma melhor adaptação do ser humano ao seu meio. Temos um cérebro que funciona como a máquina mais potente que o sujeito poderia ver. Com engrenagens capazes de tornarmo-nos aquilo que queremos ser. É nesse sentido que os circuitos neurais se formam à medida em que o sujeito vai aprendendo novas habilidades de comportamento. Imagine quando você era criança e estava aprendendo a escovar os dentes, à priori parecia uma atividade bastante complexa, pois a medida em que a coordenação motora nos auxiliava no uso adequado da escova e dos movimentos repetitivos em diferentes posições, nós tínhamos que utilizar água e leva-la a boca num direcionamento bastante correto para evitar molhar-se. Qualquer outra atividade simultânea a essa poderia dificultar ainda mais o simples escovar de nossa boca. Isso, exemplifica como um circuito neural estava sendo formado e fortalecido conforme as repetições desta atividade cotidianamente. Hoje, imagino que ao tempo em que escovamos nossa boca, estamos também falando ao celular, se comunicando com outra pessoa ou até mesmo escolhendo a roupa que vamos vestir. Pode-se considerar que uma vez que o circuito neural foi formado e fortalecido, somos capazes de emitir comportamentos no automático, ou seja, não processamos cada etapa da atividade como antes quando estávamos aprendendo. Semelhante a isso, imagine quando estava aprendendo a dirigir, o quão complexo era para aprender cada etapa do funcionamento do carro, e diferente desta época, hoje você é capaz de dirigir de forma tão automática que é capaz de fazer outras coisas quando está ao volante. Estes exemplos aproximam-se do que chamamos de fortalecimento de circuitos neurais. Todo comportamento e habilidade que aprendemos/adquirimos só será efetivada se tivermos um circuito em nosso cérebro capaz de nos possibilitar a execução de determinada atividade.

Dessa forma, o processo de desenvolvimento humano relaciona-se com a formação de circuitos neurais e consequente maturação de áreas cerebrais, por isso a importância da repetição. Lidar com crianças e proporcionar seu desenvolvimento de forma saudável e natural, tem haver com expor a criança ao comportamento que precisa ser aprendido, ensinando-a uma sequencia de etapas do que deve ser feito para que consiga apresentar um comportamento adequado frente aos estímulos necessários. Nesse sentido, os recursos lúdicos tem se mostrado como eficaz para trabalhar aspectos específicos das crianças, além do mais a família se mostra como de extrema importância pois é no ambiente familiar que a criança passa a maior parte do tempo, sendo este ambiente um aliado à escola para promover uma aprendizagem de qualidade, inclusive com a dedicação dos pais e educadores em ensinar, pois toda criança é capaz de aprender, nosso trabalho está em promover um ambiente capaz de favorecer o ensino-aprendizagem de forma efetiva.

Quando falamos do brincar como conceito de “ludus”, referimo-nos a todas as atividades que tem por objetivo a diversão infantil e aqui cabe ressaltar os brinquedos, as brincadeiras, os jogos e mesmo o imaginar. O lúdico tem se mostrado como eficaz para trabalhar aspectos específicos das crianças com, além do mais a família se mostra como de extrema importância pois é no ambiente familiar que a criança passa a maior parte do tempo, sendo este ambiente um aliado à escola para promover uma aprendizagem de qualidade, inclusive com a dedicação dos pais e educadores em ensinar, pois toda criança é capaz de aprender, nosso trabalho está em promover um ambiente capaz de favorecer o ensino-aprendizagem de forma efetiva. Jogos e brincadeiras fazem parte do universo infantil desde os primeiros anos de vida, se fazendo como extremamente importantes para seu desenvolvimento cognitivo, orgânico, social e cultural; os pais como adultos modelos para seus filhos ao tempo em que brincam com seus filhos estimulando habilidades de comportamentos adequados, fortalecem o vínculo afetivo, que também aproxima a criança de padrões comportamentais adequados.

Criança com um perfil que requer um trabalho especializado sobre emoções, um bom exercício para os pais irem ensinando aos filhos como identificar as emoções, é trabalhar com histórias onde as crianças identificam as atitudes dos personagens de acordo com o sentimento deles, ensinando-os que os sentimentos são resultados de variáveis ambientais e as ações que derivam disso devem ser entendidas conforme tais variáveis, por exemplo, ficar agressivo porque foi-lhe retirado algo, não deve ser explicado como o sentimento de “raiva” que causou o comportamento, mas a retirada de algo que o sujeito detinha. Nesse sentido, vai possibilitar que a criança possa resolver da melhor forma a situação apesar do sentimento que está sentindo no momento. Cada brincadeira tem suas especificidades, como também cada jogo utilizado, seja com cartas, jogos de montar, quebra, cabeça ou jogo da memória possibilitam a estimulação de funções executivas, as quais tem o córtex pré-frontal, como responsável por essas funções. A área pré-frontal desenvolveu-se muito nos mamíferos e é responsável basicamente pela escolha e planejamento de estratégias comportamentais mais adequadas a partir das demandas ambientais. Lesões em áreas pré-frontais prejudicam o controle de áreas subcorticais, aumentando reações emocionais negativas e comportamentos violentos (MENDES et al., 2009, p. 81).

Podemos citar outros exemplos como a brincadeira de roda, onde os crianças dão-se as mãos e giram sentido horário ou anti-horário (ótimo para estimular lateralidade) enquanto cantam alguma música infantil; essa atividade pode ser usada como ótimo recurso para a interação social, principalmente em crianças que tem dificuldade em interagir com os colegas. Algumas crianças que tem quadros claros de exacerbação na interação, ou seja tende a ser muito impulsiva, ansiosa e agitada, podem ser trabalhadas no sentido de estimular o controle inibitório. Atividades como passa a bola um para o outro pode ser usada como recurso de estimulação do “esperar sua vez”, caracterizando dessa forma um trabalho onde a impulsividade da criança poderia está sob controle do educador e buscando junto com ele estimular essa necessidade de aguardar sua vez para pegar a bola e passar ao outro.

De todas as brincadeiras infantis, aquelas que aguçam seu interesse tem muito haver com o uso da imaginação ou da atividade motora, com isso, apropriar-se daquilo que a criança gosta em benefício dela própria se caracteriza como excelente estratégia para trabalhar aspectos de aprendizagem, uma vez que evita-se a frustração e o não envolvimento, pois são brincadeiras que as mesmas já se sentem confortáveis e, particularmente a imaginação, o campo a ser explorado é bastante vasto, seja na criação de personagens fictícios, onde pode ser buscado a abordagem de temas delicados no mundo infantil, como abuso sexual, com uso de marionetes; seja na estimulação da capacidade de planejar e executar algum plano, trabalhando resolução de problemas e raciocínio lógico infantil; seja na pintura e desenho, proporcionando o contato com estruturas motoras finas, principalmente quando a criança tem dificuldade em pegar em um lápis de forma correta e até mesmo trabalhando junto com ela a capacidade de se adaptar numa situação de desconforto em que tenha que imaginar estar vivenciando algo um pouco prazeroso. São imaginações e ideias que a criança poderá tomar a vacina com um pouco menos de sofrimento, como habitualmente as crianças sentem numa situação dessa.

Com isso, o desenvolvimento de seu filho, se alinhado a um ambiente onde os pais estimulam, é garantia de que um cérebro mais adaptado ao meio poderá ser formado, instalando e mantendo comportamentos adequados e adaptados à realidade em que a criança está inserida. Espero ter contribuído para ajudar pais e educadores a trabalhar com crianças seu desenvolvimento cerebral.

Diego Vieira (@psicodiegovieira)
Psicólogo comportamental (CRP15/4764), formado pela Universidade Federal de Alagoas, especializando em neuropsicologia, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental.


Sobre os autores citados:
MENDES, Deise D. et al. Estudo de revisão dos fatores biológicos, sociais e ambientais associados com o comportamento agressivo. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 31, p. 77-85, 2009.

PEREIRA, M. (2008). A relação entre pais e professores: uma construção de proximidade para uma escola de sucesso. Universidade de Málaga.

SKINNER, B.F. (2003). Ciência e comportamento humano. Tradução organizada por J.C.Todorov & Azzi 11ª edição. São Paulo: Martins Fontes Editora. (trabalho original publicado em 1953). 

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