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Comportamento

tribunha hoje

28/01/2018 às 10:31

Dependência eletrônica é realidade entre alagoanos

Estudos internacionais comprovam que resistir às redes sociais é mais difícil que dizer não ao álcool e ao cigarro 

(Créditos de imagem: tribuna hoje)

Vou dormir às 3h da manhã todos os dias porque não consigo me desconectar”, diz a vendedora Nilza da Silva de 35 anos.

Parece até exagero, mas isto tem se tornado cada vez mais comum entre usuários de smartphones. Dificuldades de resistir às redes, insônia, comprometimento da rotina, são alguns dos problemas relatados.

O vício em redes sociais é uma realidade e tem impactos impossíveis de ignorar. É o que mostra um dos primeiros estudos sobre o assunto, apresentado recentemente pela Universidade de Chicago. Depois de acompanhar a rotina de checagem de atualizações em redes sociais de 205 pessoas por sete dias, os pesquisadores concluíram que resistir às tentações das redes sociais é mais difícil do que dizer não ao álcool e ao cigarro.

É o caso de Nilza, que assume o vício. Ela conta que já tentou diversas vezes ficar longe algumas horas do aparelho, mas sem sucesso.

“Já tentei, fiz de tudo para não usar, mas é algo que não consigo. Eu fico horas e horas usando e quando vejo já passou da hora de dormir. Aí fico mais um pouco até dar sono. Já pensei em procurar ajuda, mas é difícil”, afirma.

A vendedora leva com bom humor o vício, embora admita que atrapalhe bastante sua rotina. A dependência é tanta, que ela não larga também um carregador portátil com capacidade para três cargas na bateria do aparelho, para que não haja risco de descarregar.

“Ele é meu companheiro, não largo, não consigo. Eu acordo e a primeira coisa que pego é o telefone. Vou dormir com o telefone do lado da cama. Atrapalha bastante, principalmente o meu sono. Aí não consigo mais acordar cedo. Eu fico tanto com o celular que já ando com meu carregadorzinho [sic]”, comenta.

Uma consulta aos números do programa de dependência de internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPq-HCUSP) dá contornos brasileiros ao argumento posto pelos americanos de Chicago. Atualmente, 25% dos pacientes que buscam ajuda no programa do IPq o fazem atrás de tratamento para o vício em redes sociais.

Outro estudo promovido pelo Instituto Fleury aponta que 280 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de dependência de smartphones. De acordo com a pesquisa, os usuários viciados são aqueles que checam aplicativos mais de 60 vezes por dia ou passam mais de uma hora e meia por dia conectados nas redes.

A dependência eletrônica foi incluída pela Organização Mundial da Saúde no Código Internacional de Doenças (CID) como distúrbio mental.

Problema é agravado principalmente entre as crianças


O psicólogo Carlos Gonçalves aponta que o vício em dispositivos eletrônicos é comparado ao vício em álcool e drogas. “Temos que entender que comportamento de dependência nos aparelhos celulares, em jogos, não tem diferença nenhuma de uma pessoa que é viciada em drogas. Quando eu começo a deixar de fazer outras obrigações, como por exemplo, ir a escola, estudar, frequentar relacionamentos sociais, brincar ou conversar com os amigos, ir a uma festa… Quando eu começo a fazer isso e busco a opção em estar ligado no celular, em jogos, é o principal sintoma de que a pessoa está viciada, está compulsiva nessa atividade”, enfatiza.

Segundo Gonçalves, a dependência em smartphones pode ser enquadrada em uma perspectiva biológica.

“Quando estamos nessas atividades, ocorre uma reação bioquímica dentro do nosso cérebro, ele libera um neurotransmissor chamado dopamina, que dá uma sensação de prazer, euforia, recompensa. Quem se vicia, não consegue viver sem essa descarga de dopamina. Sempre quer mais e mais, ficam sem limites e deixam de se conectar com o mundo real, preferindo o mundo virtual”.

O psicólogo acrescenta que os excessos não estão presentes apenas entre os grupos com mais idade, pelo contrário, entre as crianças há um descontrole muito maior, causado em grande parte pelos próprios pais.

“Muitas vezes são os próprios pais que presenteiam ou incentivam os filhos a usarem cada vez mais cedo esses equipamentos, talvez uma forma de ficar livre de suas obrigações e responsabilidades. É por isso, que os consultórios de psiquiatras e psicólogos estão cheios de crianças de 3 anos de idade que já apresentam sinais de ansiedade, medo, perda do sono. Quando isso não é tratado de imediato, essas crianças tornam-se adolescentes que têm dificuldades de relacionamentos. Uma boa parte desenvolve diabetes e fica sedentária em virtude das horas que passam conectadas”, alerta Gonçalves.

O psicólogo alerta ainda que é preciso que os pais deem limites e regras aos filhos, que não os deixem soltos. “Claro que usar as redes sociais e ter acesso a tecnologia são coisas da vida moderna e estão ai para serem utilizadas, só que na medida certa, sem exageros, sabendo dividir o nosso dia a dia em hábitos saudáveis, quando vira um vicio, adoecemos”, esclarece.

E aponta um caminho para que o usuário de smartphones consigam estabelecer limites: procurar ajuda.

“Todo excesso é prejudicial, e temos que buscar ajudar essa pessoa de alguma forma, seja indicando uma ida ao psiquiatra ou psicólogo. Mas é imprescindível o apoio, o acolhimento e o acompanhamento efetivo dos pais ou de qualquer outra pessoa durante esse processo”, argumenta.

“Uso do celular é considerado faca de dois gumes”


Para o sociólogo Carlos Martins, o celular como um aparelho de conexão com as redes sociais é um instrumento considerado uma faca de dois gumes que parte do princípio de suprir as necessidades do ser humano. No entanto, ele diz que nos tempos modernos o produto não é mais resultado da necessidade e sim produto dela.

“Hoje temos essa ferramenta que parte de um princípio de suprir a necessidade. Isso é comum na história da humanidade. Todo surgimento parte desse princípio. Se formos rever a história da humanidade ela é montada nisso, tem esse processo de produção. Atualmente no sistema capitalista o produto não é mais resultado da necessidade e sim produtor da necessidade. Hoje a humanidade cria a solução para ter o problema. Esses aparelhos não respondem unicamente a esse processo de necessidade”, afirma o sociólogo.

Martins diz que temos a necessidade da comunicação, porém não do aparelho. Existe a necessidade de se comunicar, mas não temos a necessidade de termos celular. Porém, quando ele surgiu criamos a necessidade de ter. “Ou seja, ele criou a necessidade e não o contrário. Isto que gerou certa dependência ao aparelho”, ressalta.

“Existem os prejuízos e benefícios porque se tem um processo de dinamização do processo de comunicação muito grande. A conexão e uso desses aparelhos diminuiu a distância. Através deles estabelecemos contato rapidamente para qualquer outro lugar. Isso possibilita o surgimento de um sujeito cosmopolita, universal que está em todo lugar. Conhecemos cultura diferentes através da internet usando um aparelho tecnológico. Constrói uma noção de humanidade. Eu por exemplo, tive contato com um árabe e conheci sua cultura conversando com ele via internet. Por outro lado, têm os prejuízos do cotidiano do ponto de vista patológico, que muita gente por usar tanto acaba tendo problemas de vista entre outros”, esclarece.

Em relação às redes sociais Carlos Martins explica que ao mesmo tempo que elas distanciam, também aproximam.

“Existe uma questão interessante. Ao mesmo tempo em que estabelece um distanciamento entre as pessoas, elas [redes sociais], por deixarem os usuários em estado de hipnose perdendo a noção de quem está próximo, as redes sociais também estabelecem conexão dessas pessoas com outras que estão distantes. No ponto de vista das relações, elas não prejudicam, apenas criam uma nova forma de relacionamento. O problema no celular ou demais aparelhos conectados a internet é o fenômeno de distanciamento com quem está próximo”, explica Martins.

FETICHE


O sociólogo conta que as pessoas têm um fetiche pelos aparelhos, que em termos gerais não são tão necessários, mas as pessoas são seduzidas pela tecnologia.

“As pessoas têm certo fetiche da mercadoria, não é pela comunicação em si. As pessoas querem o aparelho por isso. Tem gente que tem mais de um aparelho. Elas são seduzidas por eles. Nós usamos os recursos do aparelho mais do que a necessidade de estabelecer a comunicação. É um aparelho que exige a atenção quase total de quem está manuseando, ele hipnotiza e suas ferramentas necessitam de atenção, por isso essa dependência. Tanto que isso vem gerando uma série de acidentes”, destaca.

Usuários detalham uso desenfreado


Thaisa Moura, de 32 anos é vendedora e afirma que gasta a maior parte do seu dia atendendo clientes pelas redes sociais. O difícil para Thaisa é estabelecer limites, entre o horário profissional e o pessoal. Ao saber da pesquisa, Thaisa não esconde: “Checar 60 vezes? Então eu sou”, fala aos risos.

“Uso muito. Também eu trabalho. Né? Aí uso mais. Fico o dia todo. Eu trabalho com vendas então fico falando. Quando faz a ‘zuadinha do zap’ [sic] eu já vou olhar. Assim que acordo já checo o celular para ver o que tenho de mensagens”, detalha.

Ela revela o incômodo causado pelo uso sem limites do aparelho. “Me atrapalha, principalmente quando eu quero terminar alguma atividade e chegam as mensagens. Eu tento me concentrar em algo, mas não dá. Ainda não atrapalha meu sono, pelo menos por enquanto”.

A filha de Thaisa, Camile, de 6 anos, é enfática: “Mamãe é um vício. Não larga o celular”, acusa a pequena.

Thaisa conta que em casa a briga pelo aparelho é garantida, já que a filha também não abre mão do dispositivo.

“Ela nem quer mais o tablet ou o computador. O negócio agora é o celular. Eu coloco meu celular para carregar, quando dou as costas, Camile já está com ele. Quando ela descarrega o meu, olha para o pai e diz: O dela descarregou, me dá o seu”, afirma.

A menina reconhece: “Eu uso muito. Gosto de assistir vídeo e jogar”, fala.

Celular ajuda a resolver problemas


Em que o celular atende interesses profissionais, é unânime a dificuldade em largar o aparelho. O servidor público Nelson Costa, de 60 anos é um destes.

Para Nelson, o celular é um aliado em todos os momentos, desde atividades de lazer até resolvendo problemas.

“Minha mulher está em Minas Gerais. Então, uso o WhatsApp para conversar com ela, resolver pendências. Agora mesmo estava fazendo isso. Certo dia ia ao banco para checar o pagamento do Pasep. Ia me deslocar até a Ponta Verde para isso, mas acessei meu aplicativo e visualizei que já havia caído o pagamento. É muito útil, o celular nos ajuda bastante. Quando estou ocioso, esperando algo ou alguém, abro sites de notícias, checo informações… Sou muito ansioso e o celular ajuda a me ocupar”, detalha.

Mas o servidor público não esconde que muitas vezes perde os limites. “Às vezes quando percebo já estou andando na rua e usando o celular, capaz de tropeçar nas pessoas”, brinca.

Nelson fala que apesar da utilidade, o celular e as redes sociais têm sido usadas de forma banal.

“Hoje em dia é muita futilidade. Eu mesmo só repasso coisas que acho importante, que acho que vai ajudar as pessoas. Mas recebo tantas mensagens ao longo do dia que não consigo visualizar nem 10%. E a maioria é futilidade. Me pergunto como tanta gente perde tanto do seu tempo com isso. Alguns parecem zumbis, andam, comem, fazem tudo com o celular”, diz.

Colegas de trabalho afirmam utilizar aparelho de forma limitada


Os empresários Atanil Gomes, de 43 anos, e Iranildo de Luna, de 40 anos, foram flagrados pela reportagem em uma situação muito comum. Sentados numa mesa, os dois utilizam de forma agitada os aparelhos entre mensagens e ligações, sem trocar uma palavra.

Apesar de afirmarem que usam de forma controlada, eles contam exemplos de pessoas próximas que não vivem sem o aparelho celular.

Atanil afirma que o uso é estritamente profissional e que aos fins de semana consegue se desvencilhar do aparelho, ou melhor, dos aparelhos, já que ele tem dois para não correr o risco de ficar ‘desconectado’.

“Eu não sou dependente. No meu caso é mesmo para trabalho. Como tenho negócio, consigo falar com o país todo apenas por mensagens. Mas eu consigo administrar. Uso apenas no horário comercial. Eu vejo muito pessoas, ao invés de conversar, usando o celular. A nova geração principalmente passa muito tempo conectada. Eu só tenho dois porque esse mais novo descarrega muito rápido e não posso ficar sem contato. Aí uso o lanterninha que demora uns três dias para descarregar”, afirma.

Já Iranildo afirma que usa o celular com vigilância. Mas em casa o filho dá trabalho quando o assunto é celular.

“Eu uso para trabalho mesmo, uso pouco. Mas em casa o celular da minha esposa é sempre na mão do meu filho, fica sempre descarregado”, diz. 

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